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Um livro com dupla personalidade: o b-blog versão Beta Literatura

Um livro que se diz de dupla personalidade, "mas que é fruto não de um problema, mas de uma solução mental". Versão β Literatura: crítica, teoria e tradução começou como e-book e agora é b-blog (book-blog), com textos abertos a intervenção e comentário dos internautas. Confira abaixo uma entrevista exclusiva com Cláudio Eufrausino, um dos organizadores do e-book.

Temos visto alguns livros de literatura publicados na web, por vezes inclusive explorando as características das mídias digitais. Esse seu trabalho, porém, surpreende por ser um livro teórico. De onde surgiu a ideia de criar o livro?

Pensou-se em oferecer um caminho alternativo ao tradicional circuito de avaliação e publicação de artigos acadêmicos. No modelo vigente, uma comissão editorial composta por acadêmicos analisa os textos, sugere modificações e depois dos ajustes emite um parecer, selando o destino da publicação “acabada”. O objetivo da Versão Beta Literatura é o de alterar este circuito e romper com o monopólio acadêmico da avaliação da obra.

A ideia de publicá-lo na internet foi intencional ou há como proposta uma futura publicação impressa? A academia (leia-se Lattes) ainda dá um peso muito maior ao impresso do que ao digital, não é mesmo?

A intenção foi explorar o formato eletrônico para tornar mais acessível a obra e facilitar sua difusão. É possível, porém, que a Versão Alfa, contendo os textos modificados com base nas intervenções - sugestões e críticas – deixadas pelos internautas no b-blog, ganhe uma edição impressa, mas o e-book é a primeira opção.

Inicialmente, havia uma resistência da Academia ao e-book, considerado um formato de menor valor. Mas, essa barreira já foi, em grande medida, superada, até porque as plataformas de interação entre autores e revistas acadêmicas são virtuais. Muitas publicações acadêmicas como revistas, anais de eventos, livros de resumos e coletâneas já adotaram como primeiro ou único formato de publicação o e-book, deixando-se o formato impresso como um tipo de edição especial reservada para situações comemorativas.

A mudança começa pelo fato de a publicação ser organizada por alunos. Optou-se também por evitar as tradicionais “senhas de acesso”, a exemplo da titulação. Nesta obra, há espaço para ensaios de alunos dos diferentes níveis (graduação, mestrado e doutorado).

Os ensaios passaram por ajustes mínimos, a fim de sanar problemas corriqueiros de ortografia, coesão e coerência. Apesar de serem textos acadêmicos, foi dado a eles a liberdade de buscar referências não-acadêmicas. Um dos textos utiliza como epígrafe trechos de canções de Belle & Sebastian. O ensaio de Gustavo Táriba permitiu-se dialogar com o gênero “crônica”. Não traz citações, contém gírias, mas isso não tira dele o rigor e a profundidade.

O Versão Beta procura romper mitos cristalizados pelo circuito dominante de produção de textos acadêmicos. Entre estes mitos, o principal é o de que a avaliação dos textos é um procedimento secreto, reservado ao alto escalão da academia. Outro mito é o de que a obra, para ser publicada, deve estar imune ao contraditório. Não existe texto invulnerável. Os textos são menos “Super-Homens” e mais “X-men”. A ideia desta obra é permitir que o maior avaliador dos textos seja o público, no duplo sentido da palavra: de público leitor e de que a avaliação seja algo público, pra que todos possam ver e criticar.

No circuito acadêmico tradicional, o avaliador não está sujeito a críticas. Na Versão Beta, não há esta prerrogativa. Por esta razão, a obra começa como e-book e depois vira blog. Para que tanto os autores quanto os críticos possam exercer o contraditório, mas também estarem sujeitos a ele.

Na sua opinião, podemos continuar chamando esse tipo de projeto de livro?

É uma pergunta complicada, assim como é complicado perguntar-se se os Estados-Nação, no ambiente globalizado, podem continuar sendo chamados assim. A noção de “livro” é bastante devedora das diretrizes trazidas pelo advento da “Galáxia de Gutenberg”. A ideia de que o livro é uma obra fechada a intervenção, hierarquicamente estruturada e que representa um pensamento autoral concluso, é uma metáfora da linha de produção da imprensa de Gutenberg. A pesquisadora Elizabeth Eisenstein destaca que, até mesmo a pontuação e elementos como o parágrafo, são invenções advindas com a cultura tipográfica para “ordenar” o pensamento. Nos textos medievais, por exemplo, não havia a separação entre imagem e texto, que, hoje, parece ser natural e universal. Nos moldes da concepção à Gutenberg, a noção de livro não se aplica à Versão Beta.

Mas, acredito que o conceito de livro é muito mais abrangente e oscila entre a abertura e o fechamento, entre a imagem e a palavra, entre o texto e o intertexto. Tentando resumir o que não é possível ser resumido: o livro é uma arquitetura oscilante. O que a Versão Beta deseja é expor as fraturas desta oscilação, que, no “livro tradicional” são maquiadas pelos mitos que a cultura impresso-iluminista ergueu.

Qual seria, nas suas palavras, as diferenças entre e-book e b-blog?

O livro impresso possibilitou, como destaca Elizabeth Eisenstein, tal nível de compartilhamento das ideias, que possibilitou o Renascimento. Penso que o e-book proporciona um novo salto da potência de compartilhamento de ideias. Não depender do papel, das editoras e das distribuidoras, faz do e-book uma plataforma ímpar de difusão de ideias. Mas, como foi mencionado anteriormente, o e-book, mesmo dispondo de ferramentas de interatividade, não expõe as fraturas da interação.

O b-blog ou b-book (blog-book ou book-blog), mesclando os formatos de e-book e blog coloca a céu aberto o circuito oscilante do livro entre obra aberta e obra fechada, concentrando e expondo, numa mesma plataforma midiática, o movimento do contraditório. No livro e no e-book, a versão e a contra-versão são países que buscam destacar as fronteiras que os separam. No b-blog, procura-se expor a con-fusão entre estas fronteiras.

Uma das grandes discussões na área é sobre a remuneração do artista, tendo em vista que não há ainda uma cultura de compra de livros digitais com maior valor agregado. Como o senhor vê essa questão?

Creio que, com o passar do tempo, vai acontecer com os livros o que vem ocorrendo com os filmes e seriados. Hoje, os seriados lucram compartilhadamente ao serem exibidos, por exemplo, por sites que funcionam como locadoras virtuais. Acho que isto vai se tornar uma prática comum com os livros. Acredito que o lucro concentrado será cada vez mais difícil. O lucro tende a ser diluído pelo compartilhamento da obra, seja este compartilhamento legalizado ou não.

Contudo, a diluição deste lucro é diminuída quando a obra traz a ela valores associados. O lucro de uma obra está ligado, por exemplo, à remuneração de palestras feitas pelo autor e adaptações da obra para a música e para o cinema. O lucro se dá pela exploração de novas formas de reinserção da obra no mercado. Mas, o lucro que o Versão Beta busca é o de ver a opinião e a sugestão das pessoas registradas em sua base de dados.

A ideia do projeto é seguir publicando novos textos ou o livro é um projeto acabado?

Depois de, com base na interação dos leitores com o b-blog, os autores retrabalharem seus ensaios, vamos lançar a Versão Alfa. Mas, a ideia é que, futuramente, existam novas Versões Beta, recomeçando o ciclo interminável do debate de ideias: entre a conclusão e a inconclusão.

Marcelo Spalding
23/09/2013