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A Amazon é ré, e o mercado não anda pra frente

Admirável empáfia. Cara de pau, mesmo. No estande da Amazon na Feira do Livro de Londres — um evento dee para editores — o destaque era o Kindle Direct Publishing, a ferramenta de autopublicação do grupo, onde um singelo video ensinava escritores a “deixar para lá” os editores e outros “intermediários” e começar a ganhar dinheiro vendendo eles mesmos seus livros (no momento em que escrevo, o video está fora do ar da KDP).

Orbitando pelo estande, os tais “intermediários” cochichavam ressabiados. Os editores estão cada vez mais dependentes da Amazon, mas os laços desse casamento estão cada vez mais apertados. Reclama-se (em off, claro) da política de comprimir os preços, de ficar com arquivos e metadata, das vendas transterritoriais (por exemplo, e-books guatemaltecos vendidos para cidadãos madrilenhos por um terço do preço do mesmo título na Espanha) etc.

Já as lamúrias dos livreiros não têm a ver com condições apertadas para continuar faturando — tem a ver com deixar de faturar. A Associação de Livreiros (por sinal, a patrocinadora da Feira de Londres) estima que 18% das lojas do país fecharam e atribuem a quebradeira à concorrência digital. Para reagir, lançou a campanha “Books are my bag” [algo como, “livros são minha bagagem cultural”], de valorização da livraria. Quem achasse o estande da Associação, em uma das beiradas da feira, leria o manifesto que defende que “ao comprar um livro em uma livraria [física] você participa de uma parte vital de nossa cultura, nossa comunidade”. Sem ter propostas mais concretas (além de uma esquisita plataforma para vender e-books dentroda loja), a campanha apela para valores abstratos como “cultura”, “dignidade”, “independência” etc — que o leitor pode afirmar usando uma bolsa laranja. (A campanha contará com celebridades ostentando serelepes as bolsas por aí).

Bandeiras à parte, a pendenga entre a Amazon e os editores chegou às vias de fato com um julgamento — ou melhor, um grande debate. Um corpo de cerca de 200 jurados — a maioria editores e livreiros — teve que votar se Amazon era “inimiga” do mercado, ou se a companhia de Jeff Bezos era uma força positiva para a indústria editorial.

Do lado da acusação, foi argumentado que a Amazon cresceu tanto que já não está mais concorrendo com ninguém, e sim destruindo a concorrência. Tim Godffray, chefão da supracitada Associação dos Livreiros profetizou: “queremos um ambiente em que praticamente não haja mais livrarias, e que haja muito menos editores e agentes? Pois isso é o que vai acontecer.” Apelando ao juri, o promotor pontificou: “isso será o fim da edição tradicional, como a conhecemos”.

Essa é uma deixa que os advogados de defesa não pegaram. Preferiram argumentar que a Amazon criou e fomentou todo um novo mercado, o digital, que permitiu a expansão de um negócio estagnado, e que a companhia merece os méritos de desbravadora. “A oportunidade não foi criada pela Amazon. Foi criada pela internet. Eles só aproveitaram. Temer a Amazon é temer a Internet”, decretaram.

A peroração pró-amazônica não colou no júri que era composto basicamente de editores e livreiros da velha guarda. O veredito não surpreendeu: 59 pessoas concordam que a Amazon é uma influência positiva no negócio dos livros, contra 117 que estavam magoados demais para falar sobre isso.

Debate ou julgamento, a sentença foi pronunciada. Com a Amazon ou sem ela, não se está ameaçando “o fim da edição tradicional como a conhecemos”. Esse fim já chegou; a edição tradicional já era. Até estabelecermos a nova forma de edição passaremos por um processo violento, como em todas as revoluções. Cabeças rolarão, ou pelo menos setores do mercado perderão faturamento. Só ao fim de tudo, quando a poeira baixar, saberemos se a Amazon foi amiga ou inimiga de quem realmente importa — o leitor.

Publicado originalmente em Revista Biografia.

Julio Silveira
29/07/2013